Saggi

Civilização meridional e meridionalidade: problemática entre antigos e modernos em Leopardi

 

 

Fábio Rocha Teixeira
UFSC/CNPq
fabiortx@gmail.com

 

 

Sebbene l’antichità era il tempo del bello, e della immaginazione, tuttavia anche allora la Grecia e l’Italia ne erano la patria, e luogo [...] Così per lo contrario, sebbene l’età moderna è il tempo del pensiero, nondimeno il settentrione ne è la patria.

Giacomo Leopardi, Zibaldone di pensieri

 

 

No Discorso sopra lo stato presente dei costumi degl’italiani, de 1824, a reflexão de Giacomo Leopardi sobre a modernização europeia destaca também a problemática entre “povos meridionais” [popoli meridionali] e “povos setentrionais” [popoli settentrionali], concernente à “destruição das ilusões” [strage delle illusioni] – típicas do ethos antigo – ocorrida com o advento do mundo moderno e substituídas, nesse mundo, por novos “fundamentos da moral” [fondamenti della morale] e da metafísica. Daí ser preciso compreender como a nova civilização buscou reparar os danos causados pelo desaparecimento das antigas ilusões, em virtude do vazio deixado pela destruição do ethos anterior. Em tal universo de sua reflexão, Leopardi apresenta o tema da relação entre antigos e modernos, o qual orienta, igualmente, a sua abordagem sobre a relação entre meridionais e setentrionais no domínio da questão moderna. Essa abordagem se apresenta, quer no Discorso de 1824 quer em alguns fragmentos do Zibaldone di pensieri. Nesse sentido, pensar a relação entre meridionais e setentrionais possibilita aprofundar a diagnose leopardiana do presente, quer no sentido antropológico-cultural quer filosófico-civil.

O Mezzogiorno como universo cultural: a Itália e a sua recepção europeia

A percepção do Mezzogiorno europeu é algo que veio a se estabelecer na consciência dos doutos da Europa entre o século XVII e o XVIII.  A Itália, em particular, foi acolhida como “realidade diferente e interessante, amável justamente por sua diversidade: como se aquele mezzogiorno e aquela Itália estivessem ainda mergulhados no antigo” (Placanica, 1998, p. 21). Não se trata aqui do “antigo” compreendido naquela Idade Média interpretada pelos renascentistas e identificada como momento de trevas: passado que devesse ser esquecido[1]. O antigo, portanto, é aquele correspondente ao “mítico mundo clássico (grego e latino)” [mitico mondo della classicità (greca e latina)]. Tal mundo se apresentava à recepção moderna por meio de “personagens”, “ruínas”, “poesia” e “paixões” de uma idade desaparecida.

O Mezzogiorno tornou-se cada vez mais o universo do mundo sonhado, pois precisamente no interior do mundo moderno e de seu ordenamento racional ocorreu essa volta do mundo antigo em suas expressões espirituais. Ademais, esse “desejo” de retornar às fontes remotas é algo que marca a experiência que aproximou alguns homens na sociedade moderna. Se antes o Grand Tour assumia a dimensão de “mera experiência de vida espiritual” [mera esperienza di vita spirituale], tornou-se em seguida “uma peregrinação às fontes do mundo civil” (Placanica, 1998, p. 31), e a Itália-Roma se torna “Mutter Erde da civilização europeia” (Placanica, 1998, p. 31).

Características naturais do meridione e setentrião: as formulações leopardianas

Na época de Leopardi, ou seja, aquela correspondente à primeira metade do século XIX, permanecia ainda a grande tradição de exaltação da Itália e do Mezzogiorno da Itália: algo que decorria, em grande parte, da experiência dos viajantes estrangeiros. Aos olhos desses viajantes a civilização antiga parecia se refugiar naquele ângulo separado do mundo (Placanica, 1998, p. 34). Para se abordar a questão do meridione leopardiano se retoma aqui, de início, ao Discorso de 1824, uma vez que se trata da indagação de Leopardi acerca do atraso italiano ante as demais nações europeias. Esse argumento se reporta, por sua vez, às suas preocupações morais ao criticar os costumes dos italianos[2]

Se a abordagem do Discorso leopardiano considera as razões desse atraso italiano na “falta de sociedade” [mancanza di società] (Leopardi, 2006, p.79), pode-se ainda acrescentar, com base ainda no Discorso, outra razão ou semelhantes efeitos, “a natureza do clima e do caráter nacional que dele depende e resulta” (Leopardi, 2006, p. 79). Para abordar essa outra “razão”, com base na ordem natural, Leopardi considera a relação entre povos meridionais e setentrionais. Trata-se aqui da compreensão dos “efeitos” naturais sobre a constituição do caráter das sociedades.

No Discorso, Leopardi assume como pressuposto dos seus argumentos, certo “paradoxo” [paradosso], conforme indica a seguinte passagem:

É tão admirável e semelhante ao paradoxo, quanto verdadeiro, que não exista nem indivíduo, nem povo tão próximo à frieza, à indiferença, à insensibilidade, e a certo grau tão alto e profundo e constante de frieza, insensibilidade e indiferença, como aqueles que são, por natureza, mais vivos, mais sensíveis, mais calorosos (Leopardi, 2006, p. 79).

No seu entender, esses “povos” [popoli] ou “indivíduos” [individui], quando postos em “um estado e em circunstâncias políticas quaisquer que sejam”, os efeitos serão, portanto, opostos à natureza sensível deles.

Certamente, tais argumentos pretendem enfrentar certo “caráter nacional” [carattere nazionale] das “nações civis” [nazioni civili], por se tratar de uma abordagem relativa à constituição dos “costumes” [costumi] e dos seus aspectos antropológicos e morais: compreender a natureza da vida civil de certos povos, em particular, naquilo que contribuiu para os novos fundamentos morais modernos. Daí povos e indivíduos, de natureza calorosa e vivaz, revelarem “indiferença” ante certas circunstâncias políticas. Leopardi escreve:

A indiferença que disso resulta é perfeita, muito arraigada, muito constante; a inatividade, se assim se pode chamar, muito eficaz; o menosprezo muito eficaz; a frieza é realmente gelo, como ocorre no calor grande, em que os vapores são elevados por ele a tanta levação que se apertando ali no gelo mais duro, cai despedaçado em granizo (Leopardi, 2006, p. 79).

Trata-se, portanto, de sua interpretação do que se transformou a Itália no presente, se compreendida com base na nova configuração entre as nações civis e a relação entre meridional e setentrional. Se, no passado, a Itália superou “duas vezes” [due volte] de “imaginação” [immaginazione] as demais nações, ou seja, na Antiguidade e no Renascimento, não se pode, porém, deixar de se “surpreender” que

os italianos, a mais vivaz de todas as nações cultas e a mais sensível e calorosa por natureza, seja agora no hábito e no caráter adquirido a mais morta, a mais filósofa na prática, a mais circunspecta, indiferente, insensível, a mais difícil de ser movida pelas coisas ilusórias (Leopardi, 2006, p. 80).

Nesse novo estado de coisas em que a Itália se encontrava, e havia se transformado, se lembrada a partir do passado, e aqui Leopardi destaca a relevância que ocupa a “imaginação” [immginazione] na cultura dos povos no presente – como apresenta o Discorso – encontra-se “muito menos governada pela imaginação” [molto meno governata dall’immaginazione (Leopardi, 2006, p. 80)]. Isso justifica haver se tornado uma nação,

a mais reflexiva no operar e na conduta, a mais pobre, aliás, desprovida totalmente de obras da imaginação (nas quais uma vez, aliás, duas vezes, superou de longe todas as nações que agora nos superam), de poesia qualquer (não falo de versificação) de obras sentimentais, de romances e a mais insensível à consequência dessas tais obras e gêneros (ou próprias ou estrangeiras) [Leopardi, 2006, pp. 80-81].

Para Leopardi, se comparada ao passado[3], a situação da Itália causa, no presente, espanto. Ademais, não deixa também de se admirar que, no presente,

os povos setentrionais e, em princípio, os mais setentrionais sejam hoje os mais calorosos de espírito, os mais imaginativos de fato, os mais maleáveis e governáveis pelas ilusões, os mais sentimentais quer de caráter quer de espírito quer de costumes, os mais poetas nas ações e na vida, e nos escritos e literaturas (Leopardi, 2006, p. 81).

Nos “tempos antigos” [tempi antichi][4] – acrescenta Leopardi – “o estado das coisas e das opiniões raciocinadas favorecia tanto a imaginação quanto nos tempos modernos a desfavorece” (Leopardi, 2006, pp. 82-83). Porém, algo favorecia aos meridionais.

Ao se reportar à vitalidade da imaginação dos meridionais nos tempos antigos, Leopardi expõe a diferença existente entre meridionais e setentrionais, pois

na prática a imaginação dos povos meridionais era tão mais ativa daquela dos setentrionais quanto é agora ao contrário, porque a frieza da realidade tem tanto mais força sobre as imaginações e sobre os caracteres quanto eles são mais vivos e mais calorosos (Leopardi, 2006, p. 83).

No seu entender, os novos tempos indicam um deslocamento em relação à imaginação e a compreensão leopardiana pressupõe ainda certo paralelo entre antigos e modernos. Conforme Leopardi escreve, as nações setentrionais e, sobretudo, o povo, certamente

são muito mais comparáveis e semelhantes hoje em dia às antigas que não são as nações, e de modo geral o povo do mezzogiorno, enquanto é mesmo certo que devendo escolher entre os climas e entre as características naturais dos povos uma imagem da antiguidade ninguém duvidaria de escolher os meridionais, e os setentrionais, ao contrário, como imagem do moderno (Leopardi, 2006, p. 83).

Em tais argumentos, ele concebe a “natureza e disposição dos tempos modernos” [natura e disposizione de’ tempi moderni] como não “acidental” [accidentale] e, com efeito, não “passageira” [passeggera], justificando, por sua vez, “a superioridade do setentrião” [la superiorità del settentrione], também como não “acidental” [accidentale] e sequer “previsível” [prevedibile]. Daí a sua observação:

A abundância e o excesso da vida cedem à mediocridade e também à escassez da mesma, desde que aquela não tem mais como se alimentar na realidade das coisas e do estado social, e que as opiniões refletidas contrastam consigo e a oprimem (Leopardi, 2006, p. 83).

Em uma nota do Discorso de 1824, há o argumento de que as “histórias” [istorie] demonstram algo sobre os “povos superiores aos outros nas grandes ilusões” [popoli superiori agli altri nelle grandi illusioni]. Tais povos seriam superiores também em tudo, a saber, “na literatura, na felicidade, riqueza e indústria nacional, na preponderância e domínio direto ou indireto sobre os outros” (Leopardi, 2006, pp. 83-84). Aqui Leopardi se reporta, de novo, à “situação” [situazione] de alguns povos setentrionais, pois esses povos conservam a “imaginação em meio à crescente civilização” [immaginazione in mezzo alla crescente civiltà]. Não se trata da sua inexistência nos “baixos tempos” [bassi tempi], pois a imaginação esteve “unida à barbárie” [congiunta alla barbarie]. Já nos “modernos” [moderni], sobretudo no Mezzogiorno, Leopardi assegura não faltar “civilização” [civiltà], mas decerto com “a imaginação posta em atividade” [l’immaginazione posta in attività] (Leopardi, 2006, p. 84).

Em oposição, quer ao mundo medieval, pois a imaginação se encontrava unida à “barbárie” [barbarie], quer aos modernos, em que se revela a imaginação sem “atividade” [attività], embora o Discorso não fale da barbárie dos novos tempos, mas anuncie certos elementos que podem indicar novos riscos, os dois estados são contrário, de acordo com Leopardi, “à grandeza e superioridade nacional” [alla grandezza e superiorità nazionale]. Ele conclui o seu argumento defendendo a união entre “civilização” [civiltà] e “imaginação” [immaginazione] como o “estado dos antigos, e justamente o estado antigo, e não é oportuno dizer de qual grandeza eles fossem causa” (Leopardi, 2006, p. 84).

Leopardi conclui o Discorso com uma constatação relativa à natureza dos meridionais, que justifica igualmente as mudanças ocorridas – tanto na relação com as nações setentrionais, quanto no deslocamento realizado nas disposições naturais e culturais dos meridionais para setentrionais: algo que justifica a natureza dos meridionais, seja na antiga superioridade seja na perda dela. Daí ele escrever:

Como a vida e a força interior e do espírito é naturalmente maior nos meridionais, e nos indivíduos sensíveis e nos finos engenhos, do que é nos outros, por isso eles são nas ações deles e no caráter deles mais determinados e governados, por assim dizer, pelo ânimo, e menos mecânica que outros povos e indivíduos. Portanto é quando os princípios e as persuasões deles são contrários às ilusões, frias, tendente à indiferença, à aridez, ao puro cálculo, também os caráteres e as ações deles são no todo e constantemente frias, calculadas, indiferentes, insensíveis, muito mais que nos outros povos e indivíduos também mais instruídos, mais filósofos, mais fundamentados e providos de princípios contrários às ilusões e ao imaginativo, e tendente à frieza, indiferença, insensibilidade (Leopardi, 2006, p. 84).

Isso porque, a “correspondência” [corrispondenza] entre os “princípios [principii] e a “prática” [pratica] é bem mais constante nos meridionais do que em qualquer outro povo” (Leopardi, 2006, p. 84).

Clima e disposições naturais na reflexão leopardiana sobre os povos: setentrionais e meridionais

A indagação leopardiana sobre as causas do atraso italiano ante as outras nações civis europeias, apresentada no Discorso de 1824, exige ainda uma passagem pelo Zibaldone di pensieri, pois o Discorso tem a sua elaboração em um momento relevante do próprio Zibaldone (Placanica, 1998, p. 48). Não obstante as diferenças de abordagem do tema, algo sustentado por alguns estudiosos[5], aqui importa acrescentar novos elementos ou aprofundar aqueles já anunciados no Discorso. Daí a necessidade de se considerar, de início, a questão da natureza e do clima com base em alguns fragmentos do Zibaldone.

Nesse sentido, abordando ainda a problemática da relação entre os povos, Leopardi trata no Zibaldone do clima e a natureza dos povos. Ele defende que a “estação e o clima frio dão mais força de agir e menos vontade de fazê-lo, maior contentamento do presente, inclinação para a ordem, para o método, e até para a uniformidade” (Leopardi, 2010, p. 2111). Isto porque o calor diminui “as forças do agir, e no próprio tempo inspira e inflama o desejo delas, torna muito suscetível de tédio, intolerantes da uniformidade da vida, vagos de novidades, descontentes de si mesmos e com o presente” (Leopardi, 2010, p. 2111). Contrapondo os dois climas e as disposições do ânimo, Leopardi diz parecer que “o frio fortifique o corpo e una o ânimo: que o calor adormeça, quer excitando, quer despertando, quer derretendo o ânimo” (Leopardi, 2010, p. 2111).

Certamente esses argumentos de Leopardi preparam e integram as suas análises da natureza dos povos setentrionais e meridionais. Quando aborda a atividade do corpo e do ânimo de ambos os povos, ele escreve que a “atividade do corpo é própria dos setentrionais, dos meridionais aquela do ânimo” (Leopardi, 2010, p. 2111). Ele sabe, porém, que o corpo não opera se não é movido pelo ânimo, mas pretende explicitar o que prevalece na natureza desses povos, não obstante parecer paradoxal. Daí argumentar:

Portanto, é que os setentrionais, ainda que sem controvérsia seja justamente deles a atividade e laboriosidade, mesmo sendo realmente os povos mais quietos da terra, e os meridionais os mais inquietos, embora seja propriedade deles a indolência (Leopardi, 2010, p. 2111).

Leopardi observa, na formação desses povos e das características particulares de ambos, a articulação entre os elementos climáticos e as contradições “materiais da vida” [materiali della vita] (Leopardi, 2010, p. 2173). Ele argumenta, reportando-se aos antigos setentrionais, que

mal abrigadas contra as inclemências do clima pelos casebres, à procura de alimento com a caça [...] eram também mais ύπαίθριοι[6] de vida, que não são hoje em dia os meridionais. Introduzidos os usos e comodidades do Norte se tornaram naturalmente os mais caseiros da terra (Leopardi, 2010, p. 2173).

Certamente as suas análises sobre o clima e as disposições, o modo de vida das nações e indivíduos, preparam, ao mesmo tempo, as suas conclusões de filosofia moral. Nesse sentido, ele sustenta ainda no Zibaldone, conforme os fragmentos 4062-4064, que quando se consideram

essas condições físicas da vida com relação ao moral, pode-se racionalmente afirmar que a sorte daqueles que vivem nos países bastante quente é preferível quanto à felicidade aquela dos outros povos. [...] A vida não tem absolutamente nada de desejável, de maneira que a mais longa seja preferível. Preferível é a menos infeliz, e a menos infeliz é a mais viva [...]. Ora essa comparação de climas eu a aplico aos tempos, e pondo os antigos no lugar dos povos de clima quente e os modernos, no lugar dos povos de clima frio, digo que embora a vida dos antigos fosse talvez, geralmente mais breve que aquele dos modernos, pelas turbulências sociais e os contínuos perigos do estado antigo, apesar de tudo porque muito mais intensa, ela é preferível, contendo na sua menor duração maior soma de vitalidade, ou quando também em menor espaço contivesse igual soma que a moderna maior em espaço(Leopardi, 2010, pp. 2173-74).

Meridionais-setentrionais e Antigos-modernos: sobre a atividade da imaginação, a filosofia e a vida civil

As suas considerações, acima expostas, sobre a influência do clima nas disposições naturais e no modo de vida de povos e indivíduos justificaram certa orientação que ultrapassa unilateralidades na reflexão e compreensão da natureza de certas nações civis, em particular, na Modernidade, mesmo que Leopardi não deixe de se reportar aos Antigos. Ele defende ainda no Zibaldone di pensieri, refletindo sobre a natureza desses povos e suas particularidades, que no seu procedimento não trata das “circunstâncias” [circostanze] como “passageiras e acidentais” [passegere e accidentali], ou seja, “como a maior ou mais divulgada e comum cultura de espírito etc., mas naturalmente e constantemente, no sistema de vida social” (Leopardi, 2010, p. 2173). Tornando-se a civilização comum no norte e no sul, Leopardi afirma que:

os povos do mezzogiorno, como menos caseiros, tenham sido, sejam e tenham quer ser mais inquietos e mais ativos que aqueles do setentrião, tanto no ânimo, como na realidade, ao contrário daquilo que levaria a pura natureza de uns e de outros comparativamente considerada(Leopardi, 2010, p. 2173).

É preciso considerar outras causas, a fim de uma compreensão das mudanças ocorridas no modo de ser desses povos, pois Leopardi reconhece ser “os setentrionais modernos e civis [...] na verdade muito mais diversos e mudados que os seus antigos, que não são os meridionais dos antigos deles; tanto no caráter, tanto nos usos, tanto nas ações etc.” (Leopardi, 2010, p. 2173).

Leopardi se reporta aqui ao desenvolvimento nos setentrionais de certas disposições, faculdades e atividades voltadas para a “cultura do espírito”, como forma distinta do que ocorre com os meridionais. Daí ele explicitar, com base na “vida caseira” [vita casalinga] dos setentrionais, outras disposições que contribuem, quer para uma natureza distinta quer para certas atividades do espírito. Por isso,

a solidão, o estar sempre, ou a maior parte do tempo, recolhido em si mesmo, o estar desprovido ou escasso de distrações, por causa do método e da uniformidade da vida e da pouca sociedade, deixa livre o campo às faculdades da alma de agir, de se desenvolver, de se dobrar sobre si mesmas, de meditar, de pensar, de refletir, de imaginar e produzir necessariamente um hábito de pensamento, que prejudica sumamente, ou também exclui, quer o hábito, quer a inclinação, quer o ato do operar (Leopardi, 2010, p. 2173).

Em verdade, a formação e o desenvolvimento de certas faculdades e atividades decorrem de modos de ser específicos, e quando se trata de faculdades voltadas para o pensamento e reflexão, Leopardi sabe que outro é o modo que povos e indivíduos se constituíram. Nesse sentido ele diz:

estar grande parte do tempo, distante do mundo, da sociedade, dos homens de fora; o hábito de ver a vida e as coisas humanas ordinariamente de longe, produz naturalmente as ilusões e os belos sonhos e os castelos de areia, e deixa livre o imaginar e o representar-se, e o criar-se o mundo e os homens e a vida a seu modo, e dá lugar à esperança (Leopardi, 2010, p. 2173).

 Já a esperança, quando perdida, esses homens setentrionais a recuperam

porque a esperança, desde que seja deixada agir, e não seja rejeitada pela realidade, por causa da natureza do homem retorna indubitavelmente e logo retorna); ou debilitada, lhe dá tempo de se restaurar e se reintegrar; ou moribunda, a conserva, pelo menos em vida; ou faz enfim, que em igualdade de circunstâncias, ela seja sempre mais que não seria em uma vida em meio ao mundo; e mantém longe, ou adia ou diminui o desengano, ou debilita os efeitos dela, ou reduz a extensão dela etc. (Leopardi, 2010, pp. 2173-74).

Dessas observações, Leopardi infere “consequência e prova” [conseguenza e prova] de que os setentrionais são, por uma parte,

mais profundos e subtis especuladores, mais filósofos, sobretudo nas ciências abstratas, ou partes mais abstratas dessas, ou gêneros mais abstratos etc., em suma, mais pensadores que os meridionais; daí a Staël chamar a Alemanha la patrie de la pensée (Leopardi, 2010, p. 2174).

Por outra, e algo que pode até parecer contrário, seja por essa qualidade seja pela natureza dos setentrionais e meridionais, os primeiros

são mais imaginosos e realmente mais poetas e mais entusiastas sensíveis, e de fantasia mais eficaz e forte (quanto, porém, ao poetar, não quanto ao agir; e quanto ao que é obra apenas do espírito, não do corpo), e mais inventivos, originais e fecundos do que são os meridionais (Leopardi, 2010, p. 2174).

Leopardi defende, porém, ser tal “superioridade” [superiorità] dos setentrionais modernos, realmente, um acidente entre tantos outros “acidentes sociais” [accidente sociali], e que não se trata de algo que decorre necessariamente da natureza. No seu entender, tais “acidentes” pertencem aqueles que são “constantes e conatural, em absoluto, à essência da civilização, e que durando a civilização junto a uns e junto a outros povos, não podem nunca faltar” (Leopardi, 2010, p. 2174).

 Certamente aqui há uma diferença dos argumentos apresentados no Discorso de 1824, ou seja, de não ser a “imaginação” um privilégio apenas dos meridionais e da superioridade moderna dos setentrionais, se Leopardi defende ser um dos “tantos acidentes sociais” [tanti accidenti sociali] ao pensar o modo da existência setentrional. No seu Discorso, ele sustentava de não duvidar

de atribuir em grande parte a firme e visível superioridade presente das nações setentrionais sobre as meridionais, quer na política, quer na literatura, quer em tudo que existe, à superioridade da imaginação deles. Nem esta nem aquela, consequentemente há de se considerar como coisas acidentais (Leopardi, 2006, p. 83).

Se aqui se retoma a concepção, apresentada no Zibaldone di pensieri sobre a imaginação e a relação setentrionais-meridionais, torna-se ainda mais evidente essa diferença, pois ele, pensando a relação setentrionais-meridionais com base na “imaginação”, sustenta:

Aliás, a imaginação dos setentrionais com respeito à meridional quanto é, geralmente e junta, mais forte, viva, vigorosa, ativa, fecunda e maior, tanto ainda é mais sombria, lúgubre, triste, melancólica, funesta e, pode-se dizer, feia. Como, abandonando as outras circunstâncias, ela é nutrida pela solidão, pelo silêncio, pela monotonia da vida; e a meridional pelas belezas e pela vitalidade e atividade da natureza; as obras daquela nascem entre as paredes de um quarto aquecido por estufas; as obras desta nascem, por assim dizer, sob o céu azul e dourado, em campos verdes e risonhos, em ares aquecidos e vivificados pelo sol (Leopardi, 2010, p. 2174).

Certamente, Leopardi não descuida, nessas suas observações, de certa “inevitável” (Felice, 2001, p. 681) evolução histórica – relativa aqui a esse deslocamento meridional-setentrional; sul-norte, ou seja, da civilização –, mas identifica, nesse momento do Zibaldone di pensieri, a presença apenas de um “resíduo de imaginação” (Felice, 2001, p. 691) nos novos protagonistas, ou seja, nos setentrionais. Tal “resíduo” se revela, pois, naquela “imaginação sóbria, abstrata, metafísica, e decorrente mais das verdades, da filosofia, da razão, que da natureza” (Leopardi, 2010, p. 1550). Por conseguinte, é justamente a “falta das vivas e grandes ilusões extinguindo a imaginação alegre, brisa brilhante e, em suma, natural como a antiga, [que] introduz a consideração do verdadeiro, o conhecimento da realidade das coisas, a meditação” (Leopardi, 2010, p. 1550).

Deriva dessa outra forma da “imaginação”, exposta anteriormente, como “abstrata” e “metafísica”, em que se inscreve a “verdade”, a “filosofia”, a “razão”, pois se distanciam, quer da “natureza” [natura], das “vagas ideias” [vaghe idee], correspondentes, portanto, à “imaginação primitiva” [immaginazione primitiva] (Leopardi, 2010, p. 1550). Trata-se da “imaginação” dos setentrionais, conforme escreve Leopardi, aquela forma como se apresenta na Modernidade, ou, sobretudo oggidí, pois

fundamentada no pensamento [...] na metafísica, nas abstrações, na Filosofia, nas ciências, no conhecimento das coisas, nos dados exatos etc. Imaginativa que tem mais que tratar com a matemática sublime que com a poesia (Leopardi, 2010, p. 1550).

 Aqui não se pode deixar de considerar, em particular nas suas observações sobre os setentrionais, a problemática da Filosofia[7]. Por isso, é preciso pressupor, antes de qualquer coisa, que na sua distinção apresentada com base, quer da influência do clima e situação geográfica, quer na distinção entre a mente e as tendências, Leopardi compreende entre os meridionais, os grecos, romanos, italianos, espanhóis e, em parte, os franceses, ou seja, intermediários entre sul e norte, e entre os setentrionais, alemães e ingleses[8], algo importante também para a sua abordagem da filosofia moderna e, igualmente, para a sua postura ante tendências metafísicas e abstratas modernas.

Certamente Leopardi se expressa como antimetafísico[9], ou seja, refuta os filósofos metafísicos e abstratos, em particular, aqueles setentrionais alemães, pois ele reconhece, no Discorso de 1824, que

a Itália no que concerne à ciência filosófica e o conhecimento maduro e profundo do homem e do mundo é incomparavelmente inferior à França, à Inglaterra, à Alemanha, considerando essas e aquela em geral (Leopardi, 2006, p.57).

 Ainda no Discorso, Leopardi diz que os alemães, não obstante a “inclinação presente do espírito humano à pura observação e à experiência” [inclinazione presente dello spirito umano alla pura osservazione e all’esperienza] (Leopardi, 2006, p. 82), “são ainda na literatura e na Filosofia e nas ciências aquilo que eram os antigos precisamente” (Leopardi, 2006, p. 82). Em verdade, a sua avaliação da nova cultura e filosofia alemã

estava vinculada às suas teorias geográficas e do clima setecentescas, e é ora afetuosa ora irônica, admirativa sempre, com uma veia sutil de superioridade e de desprezo [...]. Na sua mente está que os povos meridionais são (ou tem sido) os mais vivos e vitais, mais imaginosos e poéticos, mais geniais de uma genialidade integral, poemática e filosófica juntas (Sansone, 1997, p. 215).

            Aqui se revela uma nova diferença em relação à orientação do Discorso, no que concerne à problemática filosófica meridional, com base no Zibaldone di pensieri. Ao estabelecer um paralelo entre os italianos e os setentrionais no Zibaldone, Leopardi sustenta que os italianos, por causa do entusiasmo deles de uma época, serem filhos de

uma imaginação viva e mais rica que profunda, eram muito ativos, desse modo, agora, uma das razões pela qual não se apercebem ou ao menos se desesperam totalmente de uma vida sempre uniforme, e de uma inação perfeita, é a mesma imaginação igualmente rica e vária, e superabundância das sensações que deriva dela, a qual lhes mergulha sem que disso percebam em uma espécie de rêve, como as crianças quando estão a sós (Leopardi, 2010, p. 1527).

Tais observações preparam, com efeito, as suas considerações sobre os setentrionais e, em particular, sobre as faculdades e modo de ser desses povos.

Na continuidade das suas análises, Leopardi argumenta sobre a “profundidade da mente” [profundità della mente], reportando-se à “faculdade de penetrar nos mais íntimos recantos do verdadeiro e do abstrato” (Leopardi, 2010, p. 1527). Trata-se aqui da disposição dos setentrionais, a qual Leopardi reconhece como não desconhecida por eles, em particular, pelos que são “cultos” [culti], pois a “subtileza, presteza e acuidade”, ou seja, “concebimento e a descoberta do verdadeiro, lá onde aos outros é preciso esforço, e por isso erram com frequência com toda a profundidade” (Leopardi, 2010, p. 1527). Apesar disso, Leopardi observa não ser o “forte” deles, pois constitui, ao contrário, “a ocupação e, portanto, a infelicidade dos setentrionais cultos (observai com frequência os suicídios na Inglaterra), os quais não têm algo que os distraia da consideração do verdadeiro” (Leopardi, 2010, p. 1527). Embora pareça que a imaginação seja neles algo muito caloroso e original, Leopardi diz: “Todavia [...] é antes filosofia e profundidade, que imaginação, e a poesia deles antes metafísica que poesia, vindo mais do pensamento que das ilusões” (Leopardi, 2010, p. 1527).

Segundo o Zibaldone, certos estados do ânimo possibilitam a “reflexão” [riflessione], a “profundidade do pensar” [profondità del pensare], ou seja, o peso da infelicidade, da monotonia, da sombra da tirania, do escrever melancólico, da “eloquência não mais viva e enérgica, mas lúgubre, profunda, filosófica” (Leopardi, 2010, p. 1550). De acordo com Leopardi,

a falta das vivas e grandes ilusões apagando a imaginação alegre, aérea, brilhante e, em suma, natural como a antiga, introduz a consideração do verdadeiro, o conhecimento da realidade das coisas, a meditação etc. da realidade das coisas, a meditação etc. e dá também lugar à imaginação sombria, abstrata, metafísica e decorrente mais das verdades, da Filosofia, da razão que da natureza, e das vagas ideias próprias naturalmente da imaginação primitiva (Leopardi, 2010, p. 1550).

Trata-se aqui da “imaginação” como se apresenta nos setentrionais, pois possibilita, por causa da pouca vida da natureza, uma “imaginação fundada no pensamento” [immaginazione fondada sul pensiero] (Leopardi, 2010, p. 1550). Outras atividades se desenvolvem também em virtude da carência de certa imaginação, ou seja, daquela primitiva[10], uma vez que a dos setentrionais se fundamenta ainda “no pensamento, na metafísica, nas abstrações, na Filosofia, nas ciências, no conhecimento das coisas, nos dados exatos” (Leopardi, 2010, p. 1550). No entender de Leopardi, se a Grécia e a Itália – como na Antiguidade o tempo do belo (Leopardi, 2010, p. 1671) e da “imaginação” – correspondem ainda à pátria e ao lugar, a inclinação natural dos setentrionais é, em verdade, a profundidade do entendimento, do verdadeiro, do melancólico.

Por isso, a “idade moderna” [età moderna] é o tempo do pensamento e o setentrião é a pátria dele, “e a Itália conserva, todavia, alguma coisa da sua natural imaginação, do seu belo, da sua natural disposição à alegria e à felicidade” (Leopardi, 2010, p. 1671). Tais observações justificam certamente a interpretação leopardiana da relação entre tempos modernos e antigos, mas também entre meridionais e setentrionais, em particular com respeito à imaginação e à Filosofia. Isso explica, igualmente, entre os setentrionais, como exemplo a Inglaterra, ser “tão cheia de Filosofia e de conhecimentos do homem” (Leopardi, 2010, p. 1684).

Aqui se apresenta um argumento decisivo, no que concerne à relação entre setentrionais e Filosofia na Idade moderna. Em tal argumento, Leopardi se reporta aos alemães, e a certa orientação de pensamento e ao predomínio de certas disposições, de serem contrárias ao seu “sistema”. Daí ele defender:

Entre modernos, os alemães, certamente muito habilidosos nas matérias abstratas, parecem ser exceção para o meu sistema, e são totalmente o fundamento do sistema contrário [...] esses alemães nos quais a imaginação e o sentimento (falando em geral) é tão mais falso, quer forçado, quer não natural, quer frágil em si mesmo, quanto aparece mais vivo e extremo (Leopardi, 2010, p. 1855).

 As suas observações insistem na crítica aos alemães, seja na sua forma de se conduzir na vida, seja na sua atividade de pensamento. Para Leopardi, “a teoria deles, os sistemas deles, as filosofias deles, são na maior parte (a qualquer gênero pertençam: político, literário, metafísico, moral, etc. e também físico) poemas da razão” (Leopardi, 2010, p. 1979). Por conseguinte, tudo isso pertence a uma sociedade de literatos que levam uma “vida recolhida e incansavelmente estudiosa e de gabinete” (Leopardi, 2010, p. 1979). Contudo, tal vida não torna a opinião e o pensamento deles independentes dos homens, ou mesmo da opinião dos outros, mas igualmente das coisas (Leopardi, 2010, p. 1979). Em oposição à orientação filosófica e intelectual alemãs, Leopardi diz preferir os ingleses, pois

grandes e verdadeiros, “sólidas” [sode] descobertas sobre a natureza e a teoria do homem, dos governos etc. a física geral etc. disso fizeram os ingleses (como Bacon, Newton, Locke), os franceses (como Rousseau, Cabanis) e também algum italiano (como Galileu, Filangieri etc.), mas os alemães nenhuma, apesar de tudo aquilo que os filósofos deles escrevem seja, em certa razão, novo, e apesar dos alemães excederem em originalidade em todo gênero sobre qualquer outra nação literata (mas não sabem ser originais senão sonhando); e apesar da nação alemã ter tantos metafísicos, considerando também apenas os modernos, o quanto não têm deles as outras nações todas juntas, considerando os modernos e os antigos: e embora ela seja muito profunda de intelecto por natureza, e por uso (Leopardi, 2010, p. 1979).

Nesse confronto, Leopardi prossegue com os setentrionais, com a sua crítica ao modo intelectual alemão, ou seja, à forma abstrata dos estudos desse povo. Daí retornar, em seguida, os seus argumentos nos quais sustenta:

os literatos alemães têm precisamente em sumo grau aquilo que se exige do filósofo para não ser sonhador, e para não se distanciar do verdadeiro, indo na busca dele: o que os filósofos das outras nações não costumam ter. Vale dizer que os alemães têm um saber imenso, um conhecimento quase (se é possível) inteiro e perfeito de todas as coisas que são e que foram. E assim sendo eles sujeitos da realiadade em virtude do estudo deles, e os outros literatos sendo assim pouco senhores dos fatos, é realmente maravilhoso, como muito certo, que lá onde as outras nações já todas filosofando também poetando, os alemães poetando filosofando (Leopardi, 2010, p. 1979).

 Contudo, Leopardi conclui, comparando as disposições dos alemães com as dos franceses que

o mínimo e mais superficial dos filósofos franceses (tão leves e volages por natureza e por hábito) conhece melhor o homem efetivo e a realidade das coisas, daquilo que faça a maior e o mais profundo dos filósofos alemães (nação tão reflexiva) [Leopardi, 2010, p. 1979].

Para Leopardi, o procedimento dos filósofos alemães, oposto aquele dos ingleses e franceses, termina em uma “profundidade [profondità] prejudicial a eles. Daí com esse procedimento, “o filósofo alemão tanto mais se distancia do verdadeiro, quanto mais se aprofunda ou se eleva; em oposição do que acontece a todos os outros” (Leopardi, 2010, p. 1979). Ele reconhece que os alemães se encontram muito mais no “verdadeiro” [vero] quando eles “brincam” [scherzano] ou quando falam com certa “leveza” [leggerezza], ou ainda quando eles olham as coisas superficialmente do que quando pensam (Leopardi, 2010, p. 1979). Disso resulta, igualmente, a sua crítica à filosofia criticista:

aquele romance de Wieland contém um maior número de verdades sólidas, ou novas, ou novamente deduzidas, ou novamente consideradas, desenvolvidas e expressas,também de gênero abstrato, que não contém a Crítica da razão de Kant (Leopardi, 2010, p. 1979).

Com base na questão a metafísica, ele conclui: “desculpar quem na metafísica amasse mais pensar que ler; que pretendesse ser metafísico sem haver lido ou compreendido Kant” (Leopardi, 2010, p. 2352).

 

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[1] Conforme Antonio Viscardi, Condorcet é um dos que contribuiu para definir a noção iluminista do Medievo como noite tenebrosa e profunda, e usa o termo renaître para indicar o processo por meio do qual o espírito humano encontra, em certo momento, a via do “progresso” que havia perdido. O renaître de Condorcet se relaciona exatamente com o risorgimento de Bettinelli que, em 1773, publicou o célebre ensaio Del risorgimento d’Italia negli studi, nelle arti, nei costumi, dopo il Mille, em que afirma: “para bem conhecer aquela Itália que nós começamos a ver sepultada nas barbáries e, em seguida, renascer como nova cultura e beleza (Cf. VISCARDI, Antonio. Storia della letteratura italiana: dalle origini al Rinascimento. Milano: Nuova Accademia, 1960, p. 466. Deve-se destacar ainda os argumentos de Kristeller e Garin em relação a essa cisão radical entre Medievo e Renascimento, indicando certa escola classicista medieval. Ver aqui KRISTELLER, Paul. Tradição clássica e pensamento do Renascimento [1954]. Trad. port. Artur Mourão, Lisboa: Edições 70, 1995, pp. 11-29; _______ . Il pensiero e le arti nel Rinascimento [1954]. Trad. it. Maria Baiocchi, Roma: Donzelli editore, 2005 (2ª ed.), pp. 3-22; GARIN, Eugénio. Idade média e Renascimento [1973]. Trad. port. Isabel Teresa Santos et al., Lisboa: Editorial Estampa, 1994, pp. 21-61; ________ . La cultura del Rinascimento. Profilo storico. Roma-Bari: Laterza&Figli, 2010, pp. 5-34). 

[2] Conforme Cassano, na reflexão leopardiana sobre a problemática da diferença entre civilização meridional e civilização setentrional, a da diferença entre antigos e modernos foi mais abordada nos estudos leopardianos. Leopardi, em várias passagens do Zibaldone di pensieri chega a traçar uma forte articulação entre as duas diferenças. Por isso é relevante, em conformidade com o seu pensamento, considerar essa conexão, uma vez que segundo o fragmento 4256 do Zibaldone, Leopardi afirma: “A antiguidade mesma e a maior naturalidade dos antigos, é uma espécie de meridionalidade no tempo” (Cf. LEOPARDI, Giacomo. Zibaldone di pensieri, fragmento 4256 (14.03.1827), pp. 2335-2336: “L’antichità medesima e la maggior naturalezza degli antichi, è una specie di meridionalità nel tempo”). Essa diferença entre civilização meridional e setentrional não ocupa, porém, um estatuto menor no pensamento de Leopardi, pois é preciso considerar em suas abordagens, quer a contribuição de Montesquieu quer aquelas de Mme. De Staël. Daí se destacar nessas influências as referências constantes a diferenças geográficas e climáticas, as quais assumem um papel importante nas obras desses pensadores. (Cassano, 2003). Nesse sentido, ver aqui DOLFI, Ana. Leopardi e il pensar filosofico di Madame de Staël. In: Leopardi e la cultura europea. Atti del convegno internazionale dell’Università di Lovanio (Lovanio – 10-12 dicembre, 1987), Roma: Bulzoni-Leuven University press, 1989, pp. 191-205). 

[3] Deve-se destarcar aqui o apelo leopardiano ao passado de glória da Itália como sentimento de recusa ao seu presente estado moderno. Nesse sentido, ver aqui as poesias de um Leopardi civil presentes nos Canti, a saber, All’Italia [O patria mia, vedo le mura e gli archi/ E le colonne e i simulacri e l’erme/ Torri degli avi nostri,/ Ma la gloria non vedo ...]; Sopra il monumento di Dante che si preparava in Firenze [O Italia, a cor ti stia/ Far ai passati onor; che d’altrettali/ Oggi vedove son le tue contrade,/ Nè v’è chi d’onorar ti si convegna./ Volgiti indietro, e guarda, o patria mia,/ Quella schiera infinita d’immortali...]; Ad Angelo Mai, quand’ebbe trovato i libri di cicerone della Repubblica [italo ardito, a che giammai non posi/ Di svegliar dalle tombe/ I nostri padri? ed a parlar gli meni/ A questo secol morto, al quale incombe/ Tanta nebbia di tedio? E come or vieni/ Sì forte a’ nostri orecchi e sì frequente,/ Voce antica de’ nostri,/ Muta sì lunga etade? e perchè tanti/ Risorgimenti? ...] Nelle nozze della sorella Paolina [O verginete, a voi/ Chi de’ perigli è schivo, e quei che indegno/ È della patria e che sue brame e suoi/ Volgari affetti in basso loco pose,/ Odio mova e disdegno;/ Se nel femmineo core/ D’uomini ardea, non di fanciulle, amore ...]; A un vincitore nel pallone [Alla patria infelice, o buon garzone/ Sopravviver ti doglia./ Chiaro per lei stato saresti allora/ Che del serto fulgea, di ch’ella è spoglia,/ Nostra colpa e fatal. Passò stagione;/ Che nullo di tal madre oggi s’onnora:/ Ma per te stesso al polo ergi la mente./ Nostra vita a che val? ...]; Bruto minore [Fremono i poggi, dalle somme vette/ Roma antica ruina;/ Tu sì placida sei? Tu la nascente/ Lavinia prole, e gli anni/ Lieti vedesti, e i memorandi allori;/ E tu su l’alpe l’immutato raggio/ Tacita verserai quando ne’ danni/ Del servo italo nome,/ Sotto barbaro piede/ Rintronerà quella solinga sede ...]; Alla primavera, o delle favole antiche [Forse alle stanche e nel dolor sepolte/ Umane menti riede/ La bella età, cui la sciagura e l’altra/ Face del ver consunse/ Innanzi tempo? Ottenebrati e spenti/ Di febo i raggi al misero non sono/ In sempiterno? ed anco,/ Primavera odorata, inspiri e tenti/ Questo gelido cor, questo ch’amara/ Nel fior degli anni suoi vecchiezza impara? ...]; (LEOPARDI, 2006 [5ª ed.], pp. 207, 215, 227-228, 244-245, 252, 260-261 e 265). Ver também BLASUCCI, Luigi. I tempi dei “Canti”. Nuovi studi leopardiani. Torino: Einaudi, 1996, pp. 3-61.

[4] Para Francesco Tateo o antigo em Leopardi é “uma sensação, não um modelo [...], é um mito, mas não no sentido específico do termo, uma palavra que vive na realidade imediata de quem a pronuncia, mas para concretização de um modelo, é uma imaginação [...], para usar um vocábulo caro a Leopardi [...]”; (Cf. TATEO, Francesco. Leopardi e gli antichi. In: Michele Dell’Aquila (org.). Ripensare Leopardi. Fasano:Schena, 1999, p. 12.

[5] No seu escrito Placanica, reportando-se ao tema do meridione na obra leopardiana, defende haver uma diferença de abordagem entre a forma assumida por Leopardi no Discorso sopra lo stato presente dei costumi degl’italiani, de 1824, daquela desenvolvida no Zibaldone di pensieri: por conseguinte, duas perspectivas distintas de abordagem. Isso porque, no Discorso há um empenho de Leopardi em indagar aqueles defeitos e atrasos da sociedade italiana, que será, após a revisitação do meridião leopardiano, o tema do Discorso. Já aquela crítica leopardiana à Itália, do início do século XIX, apresenta uma novidade, ou seja, “um parêntese originalíssimo” decorrente de um quadro bem mais vasto de sólidas convicções acerca do meridione, constituindo assim um continuum no interior do corpo do Zibaldone, no qual uma identificação absolutamente diferente, absolutamente ideologizada e mitificada, nos oferece um Meridione do mundo bem antes da Europa e da Itália, assumindo proporções e latitudes novas, absolutamente inéditas (Cf. PLACANICA, 1998, pp. 48-49). 

[6] Tal termo assume aqui o significado de algo externo, de exterioridade.

[7] Ver aqui POLIZZI, Gaspare (org.). Leopardi e la Filosofia. Firenze: Polistampa, 2001, p. 75.

[8] Cf. SANSONE, Mario. Storicità e letteratura da Machiavelli a Leopardi, Napoli: Edizioni Scientifiche Italiane, 1997, p. 215.

[9] É importante destacar aqui a exposição realizada por Sansone acerca das fontes filosóficas de Leopardi, situadas em particular na filosofia do século XVIII. Nesse sentido tal crítico destaca na sua exposição as formulações antimetafísicas leopardianas e o repúdio de Leopardi aos filósofos metafísicos e abstratos. Para Sansone quando Leopardi fala de “sua” metafísica não significa apreender princípios para além da experiência, mas aquelas formulações gerais que valem para fundamentar e justificar a construção empirista. Ele reconhece ainda que Leopardi fala não raramente de metafísica, mesmo quando aborda a problemática do seu sistema: embora não se trate de identificar o procedimento leopardiano com uma orientação abstrata e especulativa. Cf. SANSONE, Mario. Storicità e letteratura da Machiavelli a Leopardi, p. 215.

[10] Ao considerar a faculdade da imaginação em Leopardi, valendo-se da relação entre meridionais e setentrionais, Cassano fala da superioridade da imaginação meridional, dado que nasce da circunstância de ela se encontrar em harmonia com a natureza, ao passo que aquela setentrional é menos fácil, menos frívola e menos emotiva. Na continuidade de sua exposição, Cassano diz haver em toda qualidade o seu oposto, assim a imaginação meridional prejudica “a atividade externa” e por uma superabundância de vida interior “torna o Mezzogiorno rêveur, indolente e insouciant”. Nesse sentido a ambivalência vale também para o tipo de imaginação prevalente nos países do Norte. Rápido, porém, Leopardi abandonará, segundo Cassano, essa tese para desenvolver aquela, muito mais interessante, da diversidade da imaginação setentrional, reconhecendo de haver dado vida, na idade moderna, a resultados superiores, na Filosofia e na Poesia, ou seja, naqueles produtos da imaginação meridional agora decaída (Cf.CASSANO, Franco. Oltre il nulla. Studio su Giacomo Leopardi, pp. 6-7).