Interviste

Entrevista com Olgária Matos

 

 

Olgária Matos é professora, filósofa, escritora e pesquisadora no campo da Teoria das Ciências Humanas. Possui pós-doutorado pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales e é professora titular da Universidade de São Paulo.  Contribuiu para elaborar e fundar o curso de Filosofia do Campus de Humanas da Unifesp em Guarulhos, no qual é também professora e coordenadora desde 2007. Lecionou também no Mestrado em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba (UNISO) entre os anos 2003 e 2008. Sua Tese de Doutorado “Os arcanos do inteiramente outro” obteve o Prêmio Jabuti de Ciências Humanas em 1990. Olgária Matos possui um amplo universo de interesses em sua atividade de pesquisadora e aborda temas da filosofia à cultura contemporânea, estética e política, história da Filosofia, ética e hermenêutica, música, arte, cultura popular e fenômenos da contemporaneidade, sempre dentro da perspectiva de um olhar sensível, lúcido e crítico. É reconhecida no meio acadêmico como grande estudiosa do pensamento de Walter Benjamin e possui um histórico de dezesseis livros publicados na mais variada ordem temática.

 

 

Andréia Guerini

Universidade Federal de Santa Catarina/CNPq

andreia.guerini@gmail.com

 

Fabio Rocha Teixeira

Universidade Federal de Santa Catarina/CNPq

fabiortx@gmail.com

 

 

Appunti Leopardiani:  Como se deu o seu percurso na filosofia: quando iniciou....

 

Olgária Matos:   Meu primeiro encontro com a Filosofia se deu por volta de meus 12 anos, quando pude ler um livro sobre "Máximas e Reflexões", que reunia aforismos de filósofos, escritores e poetas, citações que tratavam da vida e com seus "ensinamentos", como a de Goethe que dizia "desfrute da vida, que a juventude não passa de um instante", “duas coisas enchem minha alma de admiração e respeito: o céu estrelado acima de minha cabeça e a máxima moral dentro de meu peito", etc. Depois, no colegial, tive três anos de História da Filosofia, o que me encaminhou para a Faculdade de Filosofia da USP.

 

A.P.: Como se deu o contato com filósofos italianos?

 

O.M.: Tive noticia pela primeira vez dos filósofos italianos a partir Petrarca, de Dante, em quem, como em Platão, filosofia, literatura, ciência e poesia não se separam. Nas aulas de História,  no ginásio, quando se estudava o Renascimento, a professora e o livro adotado falavam de maneira breve das relações da pintura do período e a filosofia de Marcílio Ficino, etc. Depois, na Universidade, se iniciou a abertura das áreas de Filosofia medieval e do Renascimento, e aí li Giordano Bruno, Pico della Mirandola, depois Croce, Leopardi, na literatura bem filosófica, Lampedusa, Ungaretti, etc. 

 

A.P.: O que considera dos filósofos italianos atuais?

O.M.: À filosofia italiana contemporânea: Umberto Galimberti, Massimo Cacciari, Mario Perniola, Esposito, Agamben, Recalcati, etc etc, tratam da modernidade segundo a percepção de um tempo de homens partidos, a questão das filiações, da herança, das rupturas, das incorporações das experiências do passado, do sofrimento identitários, da "maquina do mundo", enfim!

 

A.P.: Roberto Esposito, em Pensamento vivo: origem e atualidade da filosofia italiana (de 2010), traduzido para o português em 2013, fala de uma "revitalização do pensamento italiano", que "após um longo período de retraimento, ou ao menos de impasse, parece que novamente se abre um tempo propício para a filosofia italiana"[...] (2013, p. 9). Você concorda? Qual é o seu ponto de vista sobre essa constatação de Esposito?

 

O.M.: Esposito, como Cacciari e outros filósofos contemporâneos, encontram em Leopardi algo como uma pré "dialética do esclarecimento", a obra em que Horkheimer e Adorno tratam, entre outras questões, da crítica ao progresso "alienado", seus desenvolvimentos que vão sem rumo nem direção, pois a ciência hoje "não pensa, mas faz". Leopardi, com máxima liberdade, não se encantou sem críticas com a modernidade da Revolução Francesa, mais atento ao mundo que se perdia, que não era nem justo nem ideal, mas que era, como a antiguidade clássica e medieval, capaz de se idealizar. E um poema como Vagas Estrelas da Ursa e o Infinito são a expressão máxima dessa consanguinidade entre filosofia, poesia e busca da memória, da história e do "si mesmo" dispersos no tempo.

 

A.P.: Sabemos do seu grande interesse por Walter Benjamin, poderia falar/comentar sobre essa sua "paixão"?

 

O.M.: Walter Benjamin não é um, nem dois, é "trezentos e cinquenta", há o Benjamin dos escritos da tradição do romantismo, como O Narrador, os ensaios sobre Goethe, etc, há o Benjamin "materialista" do Autor como produtor, o Benjamin alegorista e surrealista, do Drama Barrico, de Rua de Mão  Única, o marxista teologizante dos escritos marcados à sua maneira pelo messianismo judaico, o Benjamim filólogo e tradutor, o Benjamin dadaïste das ‘Passagens’ etcetc, é tudo sob os auspícios da poesia, de uma poesia em que "a ação é irmã do sonho". Benjamin despertou do sonho sem trai-lo-- como escreveu Adorno-,esse sonho que, em meio à "meia-noite da história", atualizava, citando-o, um rabino que dizia que o Messias chega ao mundo discretamente, por uma "porta estreita"; não vem para revoluções do "homem novo", da tabula rasa, dos grandes gestos teatrais e "heroicos", para fazer o mundo um pouco menos injusto, o Messias vem para mudar apenas um pouco as coisas, mas  esse pouco já é imenso; esse pequeno gesto, só o Messias está à altura de fazê-lo. Obra de arte e filosofia “total”, os escritos de Benjamin reúnem filosofia  e teologia, no que ambas comportam de compreensão do mundo e da humana condição, para pensar o presente à luz das tradições, sem a solução fácil e preguiçosa de tomar o presente como auto-engendrado.

 

A.P.: Que relação você estabeleceria entre Leopardi e Benjamin?

 

O.M.: Leopardi e Benjamin têm questões comuns e, por razões diversas, realizam a crítica ao progresso anárquico e produtor de angústias e desenraizamento, têm essa percepção de quanto à poesia, a literatura dizem o que o conceito não alcança, de onde a prática do fragmento, da citação, do aforismo, que abreviam uma "sabedoria prática" para tempos historicistas, quer dizer, sem experiência, que tomam de empréstimo experiências que não receberam nem compreendem, para simular pertencimentos, experiências de que fomos despojados pela ciência e pela técnica que escaparam ao controle do homem, com seu cortejo de violência e guerras. Um elemento de melancolia ativa permite parar para pensar, na época em que a aceleração induz à pressa, à desatenção consigo mesmo e com o outro, melancolia como um anjo alado e desperto para as questões "espirituais", aquelas que podem “humanizar o homem".

 

A.P.: Qual a sua visão sobre o atual momento político no mundo? Quais são as novas exigências para as futuras gerações?

 

O.M.: O mundo contemporâneo é anti-intelectual e, incapaz de compreender a "vida do espírito", a proscreve e desqualifica como supérflua, em nome da adaptação ao "espírito do tempo". Nunca se falou tanto em inclusão, enquanto que a modernidade exclui da maneira mais cabal aqueles que não se adaptam ao ritmo das tecnologias, etc, os "naufrágios da modernidade". Penso que esforços deverão ser feitos para reaver a autonomia do pensamento, para que as formas de abrandamento dos costumes e diminuição de preconceitos e injustiças não criem novas formas de sofrimento e de inclusão subordinada para aqueles que historicamente foram excluídos do mundo cultural e histórico. Como escreveu Adorno, "os deserdados da cultura são os verdadeiros herdeiros da cultura". Cultura bem entendida: ela é fonte de autoconhecimento, de delicadeza, de barreira contra a barbárie e prazer do conhecimento. Nada disso se adquire a curto-prazo, é tarefa de uma vida inteira. E para começar, a universidade  deve lutar para a retomada da cultura humanista, literária, que foi proscrita, lutar pelo retorno dos estudos de grego e latim em suas literaturas e língua, afinal os compêndios de medicina e matemática se expressam com palavras e alfabeto gregos, a biologia com o latim, etc. Nessa tradução letrada, às culturas antes orais puderam ser transmitidas para chegarem até nós. Herdamos essa cultura ao herdarmos nossa língua, em um generoso cosmopolitismo hibridismo linguístico e cultural, fundamento da vida política.