Recensioni

Franco D’Intino e Luca Maccioni, Leopardi: Guida allo Zibaldone, Roma, Carocci editore, 2016, 144 pp.

 

 

Andréia Guerini

Universidade Federal de Santa Catarina/CNPq

andreia.guerini@gmail.com

 

Leopardi: guida allo Zibaldone, de Franco D’Intino e Luca Maccioni, como sugere o título, é um guia de uma das mais importantes “obras” de Leopardi, o Zibaldone di Pensieri (1817-1832), na qual, segundo informa Franco D’Intino, “Leopardi ha inventato, con la sua lingua ricca e perfettamente bilanciata, uno stile saggistico moderno, impresa che non è risucita a nessun altro autore dell’Ottocento né prima né dopo di lui” (p. 9).

 

O livro está organizado em 4 partes: “Luoghi, tempi, modelli, funzioni”; “Una scrittura reticolare”; “L’io e l’altro”; “Percorsi, temi, problemi”. Os capítulos 1 e 3 foram escritos por Franco D’Intino, que é professor de Literatura Italiana Moderna na Universidade La Sapienza,de Roma, e organizador junto com Michael Caesar, da importante edição inglesa do Zibaldone, publicada em 2003. O capítulo 2 foi elaborado por Luca Maccioni, doutorando da Universidade La Sapienza, de Roma. O capítulo 4 foi escrito por Franco D’Intino, com exceção dos subitens 4.4 e 4.8, que tiveram a contribuição de Luca Maccioni e Elisabetta Brozzi, respectivamente.

 

A “Premessa” do livro inicia com a justificativa de uma quase “impossibilidade” na composição deste livro, pois os autores afirmam que: “Una guida allo Zibaldone è forse un’impresa impossibile, tanto conflittuali sono le forze che lo hanno generato, e molteplici e intricati i percorsi che lo attraversano” (p. 7). Apesar dessa quase “impossibilidade”, o livro apresenta um panorama geral do Zibaldone,, com informações basilares para os estudiosos do escritor italiano, porque condensadas em um único volume, mas também útil para preparar e introduzir o terreno ao leitor que pretende entrar no denso e “enigmático” texto leopardiano, pois como atestam os autores, o Zibaldone é considerado um “testo inclasssificabile, tendenzialmente infinito, e al tempo stesso frammetario; frutto di una cultura scritta e livresca ma intriso di oralità; testo erudito, trasudante fatica e costrizione, eppure liberissimo, ardito: al confine tra forme, genere, lingue, discipline: lo Zibaldone sembra incarnare e insieme combattere lo spettro con cui Leopardi si misurò tutta la vita, quello della contraddizione e del caos” (p. 7).

 

Após essas considerações, Franco D’Intino, no primeiro capítulo, aborda a difícil questão de como definir o Zibaldone: se texto, obra ou documento, pois o manuscrito aparentemente não foi pensado para publicação, ficando inédito até o final do século XIX. A difícil classificação desse manuscrito pode estar ancorada no fato de ser um texto, que pertence a uma “famiglia testuale anfíbia” (p. 10), pois se encontra nas fronteiras entre o diário, o ensaio, as memórias, a autobiografia, o tratado, as reflexões e máximas. Em seguida, D’Intino resume a estrutura do Zibaldone: as primeiras cem páginas (1817-1820), não datadas, que podem ser consideradas “una sorta di intenso preludio, nel quale troviamo già tutti i problemi e i temi fondamentali [...] (p. 14); o corpo central e final (1820-1832), momento em que o Zibaldone assume a forma de diário, que será um modo de “conservare traccia del sé e dei suoi spostamenti nello spazio, e di mediare la relazione con il tempo, la matrice primaria di questo testo” (p. 13). É nesse momento que mostra ainda a frequência com que Leopardi escrevia, os anos de maior produtividade, 1821 e 1823, até o momento da finalização da escrita do Zibaldone, passando em seguida ao espaço geográfico da escrita do Zibaldone, que ficou restrita à cidade de Recanati, mais especificamente, à famosa biblioteca da casa Leoaprdi, já que apenas 26 das 4526 páginas manuscritas foram escritas fora da cidade natal. Em seguida, D’Intino fala das ausências e das presenças na biblioteca (gramáticas, manuais de retórica, antologias, diferentes versões da Bíblia, textos da cultura clássica etc) e ainda trata do título, da sua origem e dos possíveis significados da palavra ‘zibaldone’, que indica um campo semântico que nos leva a: “mistura”, “conjunto caótico de escritos”, “mistura sem ordem”, “caos”, “caos escrito”, por isso também a tal “impossibilidade” de se conceituar os escritos contidos no Zibaldone.

 

No segundo capítulo, “Una scrittura reticolare”, Luca Maccioni aborda questões relacionadas à nomeação dos escritos leopardianos, informando que “Leopardi fu sempre molto restio a definire chiaramente lo Zibaldone” (p. 21), pois o uso da palavra “zibaldone” aparece somente 10 anos após o início da escrita. Como lembra Maccioni, os termos mais usados por Leopardi eram: “pensieri”, “volume manoscritto”, “scartafaccio”. Em seguida, o autor procura definir a forma como Leopardi foi compondo o texto, o momento em que começa a datar os autógrafos e a elaborar as fichas de anotações e as indicações internas, formando uma “struttura reticolare che annoda tra loro i pensieri e formaliza il collegamento tra brani non necessariamente contigui nel tempo” (p. 22), criando uma rede hipertextual. Trata, então, dos fichários e do índice de 1827 para explicar como se dá o processo de “indicizzazione” do Zibaldone, isto é, a forma como Leopardi registra o lema ou lemas usados para “individuare i concetti e i campi semantici che via via emergono dai brani del testo, a loro volta identificati da pagina e capoverso” (p. 24-5). Na sequência são analisados os diferentes tipos de escrita que emergem do Zibaldone: o diarístico e o ensaístico. No tipo de escrita “diarístico”, Maccioni subdivide em quatro tipos: o pensamento poético, as memórias (espaço autobiográfico das reminiscências e recordações da própria existência), as notas (notas de natureza filológica e anotações de leituras) e os aforismos. No plano ensaístico o autor faz uma distinção entre o ensaio e o tratado, diferenciando a escrita de Leopardi nessas duas modalidades. Ainda nesse capítulo, o autor trata daquilo que intitula como conexões entre os pensamentos, metáforas e analogias e as “svolte e rovesciamenti” (p. 38).

 

No terceiro capítulo, Franco D’Intino analisa a presença de diferentes línguas no Zibaldone, o qual assume um “caráter babélico”. Essa característica faz com que o Zibaldone não seja apenas um “texto italiano”, pois ao se ter essa construção “poliglota”, cria-se, “una originale riflessione filosofica che colloca la costruzione dell’identità del sé all’interno della differenza/estraneità – e della tensione – tra le lingue” (p. 45). Nesse capítulo, o autor ainda mostra que, pela formação de Leopardi, ligado a uma “antichissima cultura retorica”, ele não podia “concepire un io monolitico e monologico, non articolato al suo interno nella doppia istanza della produzione e della ricezione, autore e al tempo stesso ascoltatore e lettore di se stesso” (p. 48). Esse procedimento ajuda Leopardi a “mettersi nei panni dell’altro” não apenas pelo fato de que falar em outra língua é bom, pois permite sair de si, para escutar o outro, mas também porque Leopardi em diversas passagens do Zibaldone, além de escrever em língua estrangeira (latim, grego, francês etc), insiste em colocar-se como se fosse o autor daquele determinado texto. Outros recursos usados por Leopardi são a utilização da paráfrase (às vezes), da alusão (raramente) e da citação fiel (geralmente) e ainda, conforme destaca D’Intino, “lo Zibaldone è costellato di parentesi in cui Leopardi traduce (in proprio o adotando la voce di un altro traduttore), spiega, postila, offre soluzioni alternative, puntualizza, commenta” (p. 51). Esses procedimentos fazem com que Leopardi dialogue constantemente com diferentes autores, e os mais citados são Homero (274 menções), Platão (7 citações), Aristóteles (55), depois Virgilio, Petrarca, Tasso, Foscolo, Anacreonte, Cícero (203 menções), Descartes, Newton, Galileu, Locke, Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Madame de Stäel entre outros. Há também os “fantasmas” como, por exemplo, Montaigne, Pascal, Vico, Condillac. Para concluir o capítulo, D’Intino ainda fala das obras mais visitadas por Leopardi, que são os livros relacionados ao léxico, como o Lexicon de Forcellini para o latim e os glossários de Du Cange para o grego e latim, o Vocabolario della Crusca para o italiano. Além desses, Franco D’Intino diz que a verdadeira paixão de Leopardi são os “libri-contenitore” (p. 89), que ele define como “opere di natura assai diversa, che hanno però in  comune la caratteristica di raccogliere varie opere [...], o frammenti di opere, oppure sommari, o ancora citazioni” (p. 89).

 

No último capítulo, “Percorsi, temi, problemi”, Franco D’Intino inicia afirmando que o “Zibaldone è il prodotto di una continua tensione tra poli opposti: astrazione e dati di fatto, sistema ed esperienza, sincronia e durata” (p. 93). É essa “tensão de opostos” que, em grande parte, dá vida ao Zibaldone que, por sua vez, é potencializado pela “experiência”. Por isso: “Il diario vive dunque grazie alla tenacia con cui Leopardi fonda i propri ‘sistemi’ su esperienze ed esperimenti individuali, su episodi personali, su sensazioni intime e memorie di cose viste o ascoltate”, e ainda conforme destaca D’Intino, a “forma “diaristica e frammentaria dello Zibaldone non è dunque accessoria, ma strutturalmente necessaria, perché rivela la dipendenza del pensiero dallo scorrere di un tempo naturale ed esistenziale, segnato dalle stagioni e da ricorrenze pubbliche e private, quei luoghi pieni di significato nei quali – secondo Benjamin – si condensa la durata dell’esperienza” (p. 94). Outros dois elementos se somam: autobiografia e memórias. Não por acaso, nele encontramos marcas/rastros de projetos da Storia di un’anima ou ainda das Memorie della mia vita. Ainda como vetor norteador do Zibaldone são tratadas as questões sobre antigos e modernos (4.2), além de uma infinidade de possíveis temas antropológicos, filosóficos, metafísicos, teológicos, sociológicos, políticos tratados nos itens 4.3, 4.4 e 4.5 do livro. Uma questão não menos importante é tratada no item 4.6, em que D’Intino afirma: “A una prima lettura, lo Zibaldone non sembra un testo ricco di osservazioni scientifiche. A percorrerlo con attenzione, invece, le scienze si rivelano un punto di vista privilegiato per chiarire alcuni aspetti non secondari del pensiero e della poetica di Leopardi. Anche nella forma, lo Zibaldone può essere letto come una sorta di “quaderno di laboratorio” del poeta [...] e acrescenta “Per la disperazione degli interpreti e dei lettori, Leopardi torna circolarmente sulle stesse questioni, offrendone sfaccettatture diverse, spesso divergenti  quando non diretamente incompatibili” (p. 118-9). E eis aqui o um dos terremos arenosos ou mais problemáticos para quem quer entra no laboratório leopardiano. Outras três questões tratadas estão relacionadas à língua e ao estilo (4.7.), até porque o “Zibaldone è uno straordinario edifício linguistico e stilistico, la fucina della prosa italiana moderna, ma anche un laboratorio di analisi teorica e applicata alle lingue che Leopardi conosceva bene” (p. 125), aspecto esse ampliado no item 4.8, quando Elisabetta Brozzi, em “Archeologia linguistica e filologia”, trata do grande interesse de Leopardi pela filologia, destacando o fato desse interesse ser anterior à escrita do Zibaldone. Em relação à forma como Leopardi trata as notas filológicas no Zibaldone, a autora diz: “Le note filologiche [...] si collocano su due livelli di osservazione: il primo è quello che segue la trama del diario, in cui la riflessione filologica si inserisce nel fluire dei pensieri; il secondo livello è della nota filologica in sé, letta nella sua autonomia di emendamento al testo o congettura” (p. 128). Destaca ainda que “[...] le note filologiche nello Zibaldone si svolgono paralelamente ai lavori filologici coevi, con pochissime intersezioni: gli ambiti rimangono distinti” (p. 128), ademais informa que a filologia espelha a formação de Leopardi, que se enriquece com a reflexão filosófica e a linguística comparativa. Concluindo este capítulo, Franco D’Intino em “Estetica, poesia, voce, musica” aborda questões sobre a formulação de um tratado sobre “teoria estética”, direcionado, mais para a literatura que para as artes figurativas. Nesse tratado temos, segundo o autor, os vetores fundamentais do pensamento leopardiano: “retorno à natureza”, de um lado, “retorno ao antigo”, de outro, sendo Homero o grande poeta desse movimento. A partir disso, Leopardi vai desenvolvendo uma ampla teorização sobre poesia, que se relaciona à “voz”, porque como informa D’Intino “La poesia è pensabile per Leopardi solo come voce, canto, emissione materiale di suono, respiro” e também por isso, o grande interesse pela música. Não por acaso, a lírica se configura como o gênero superior na sua teorização sobre gêneros literários.

 

Ao final de cada capítulo, os autores fazem referência aos textos usados para cada uma das partes do livro, além de apresentarem uma pequena bibliografia geral ao final. Obviamente, há uma grande quantidade de livros sobre o Zibaldone não citados, o que representa uma lacuna, ou seja, seria excelente se esse guia ao Zibaldone oferecesse ao leitor uma ampla e exaustiva bibliografia, incluindo artigos e livros que vem sendo publicados dentro e fora da Itália, mesmo se lemos à p. 141, que “La critica leopardiana è dificilmente classificabile per argomenti, giacché le aree disciplinari e tematiche si intrecciano continuamente nell’autore come negli studiosi. Inoltre, dello Zibaldone si tratta spesso anche quando si parla di altre opere”. Contudo, é possível dizer que o grande mérito deste pequeno, mas importante livro é o de condensar e reunir em um único volume as principais informações sobre o aparato textual e metatextual criado por Leopardi ao longo dos 17 anos de escrita do Zibaldone e de como essa “obra”, ou esse texto, para usar a nomenclatura preferida pelos autores, merece ainda ser explorado e conhecido dentro e fora da Itália.